Conhecimento, inteligência e lucidez

Adão Villaverde

A brutal crise descortinada pela pandemia do coronavírus, fez emergir um amplo movimento de solidariedade, colaboração e cooperação no nosso país e em nível mundial, como nunca antes visto, mesmo em meio à enorme apreensão produzida pela avalanche que toma conta da humanidade.

Temos exemplos que vão desde aquelas pessoas que decidem ajudar ou fazer compras para as mais idosas, para que permaneçam em casa evitando riscos; temos profissionais de saúde dobrando ou triplicando plantões para se dedicar ao combate ao Covid-19; vemos doações importantes de vários setores para melhorar infraestrutura de saúde nos Estados e Municípios; temos governos assumindo suas funções públicas que pareciam ter renunciado, e produzindo políticas e orientações para proteger suas populações; e muitas outras iniciativas, todas contribuindo para que possamos ultrapassar esses tempos absolutamente turbulentos.

Foi neste contexto de inquietudes, e porque não dizer de medos e pavores, que um segmento, muitas vezes, pouco prestigiado pelos governos e pela própria sociedade, alça-se com destaque em muitas pontas deste multifacetado e complexo sistema de combate ao coronavírus, que a pandemia produziu, ao aglutinar-se e consolidar-se em torno de diferentes arranjos institucionais.

Falo aqui das universidades, dos centros de pesquisas, dos parques tecnológicos, dos Hubs de Inovação, nas mais variadas áreas, daqueles que têm o papel e as funções de transformarem o conhecimento, a inteligência e a lucidez, aqueles ativos intangíveis para a grande maioria das pessoas, em resultados concretos, objetivos e de expressivo arrojo humano para este momento, na defesa do maior valor que podemos salvaguardar para cada cidadã ou cidadão, qual seja, a vida.

Essas instituições, que nascem a partir do processo do conhecimento, que se produzia e se reproduzia no sentido de sua mais ampla universalidade, que, como muitas outras, além de terem poucas políticas e instrumentos de financiamento para ajudarem o desenvolvimento científico, tecnológico e inovativo do nosso Estado e país, basta ver os orçamentos dos governos em todos os níveis, também foram atingidas pela impossibilidade de transmissão de conteúdos presenciais. Bem como do regular funcionamento dos seus setores administrativos, também eles operando em home office, não se intimidaram, não se recolheram. Pelo contrário, tomaram à frente, contribuindo com a busca de soluções de suporte ao enfrentamento desse quadro totalmente adverso que estamos passando.

Em poucos dias já são identificadas infinitas iniciativas para ajudar no combate ao vírus. São realizações de kits testes do Covid-19; máscaras de impressão 3D; desenvolvimento e consórcios de equipamentos de proteção coletiva e individual, como máscaras de acrílico; estudos populacionais da pandemia; qualificação dos espaços hospitalares, com o uso já da telemedicina; aplicativos para orientações; suporte a empreendedores e startups; triagem por vídeo-conferência e a implantação de central de teleorientação médica, dentre tantas outras.

Vivemos um tempo em que necessitamos mais que aplausos aos nossos pesquisadore(a)s e profissionais da saúde. Suas competências e originalidades investigativas são incontestáveis, portanto irrefutáveis. E, com toda a justiça e merecimento, devem ter todo o apoio material do Estado, do setor empresarial e da sociedade civil, porque eles são artesões da transformação concreta da ciência em melhora na qualidade de vida das pessoas.

Quando passar esta hecatombe, estou convencido que temos que transformar os aplausos que a comunidade de pesquisa e da saúde tem recebido, das janelas dos nossos já enfadonhos confinamentos das “grávidas” cinturas de nossas cidades, em um forte e sincero movimento e momento de reflexão. Uma espécie de dedicada e minuciosa atenção, talvez uma reverência na forma cerimonial ou de rito, destes que a história humana está repleta, mas alguns com o significado histórico de terem dividido águas e eras.

Que tenha como finalidade fixar momentos que a humanidade considera importante em suas vidas, seja na sua particularidade de indivíduos, os quais vivenciam suas relações pessoais e familiares, como hoje nos impõe o auto-isolamento, seja na pluralizada condição de partícipes de uma determinada sociedade, numa determinada época.

Para que iluminados pela lucidez que estes tempos difíceis exigem, possamos fazer como que estancássemos o fluxo da história, interrompêssemos a corrente uniforme do tempo e, produzíssemos um registro e testemunha da realização humana para a eternidade. Uma espécie também de alimento da memória, mas sobretudo um compromisso, uma espécie de selo que enviaríamos à posteridade como forma de correspondência de um período de nossa existência.

Que tenha a capacidade de mergulhar raízes nas próprias raízes do tempo, a semelhança do que foi por exemplo, a primeira aldeia reunida em torno de uma fogueira, numa noite parecida com as tantas que temos passado nos últimos dias. Para agradecer com danças e cantos aqueles entre os seus que haviam produzido as rudimentares noções de um rudimentar conhecimento, a primitiva ciência, tecnologia e inovação, que estavam na base de primitivos instrumentos de agricultura ou caça.

E foi a luz dessa fogueira primordial que aconteceu algures que iluminou nossa travessia como gênero humano, da barbárie para a civilização. E que os aplausos, as palavras e as reflexões que façamos, tenham a mesma razão das canções de outrora, porque esses profissionais, nas suas diversas áreas, produzem trabalhos que possuem o mesmo sentido dos primitivos instrumentos de nossos ancestrais. Aqueles que nos aproximaram também do florescimento humano e fizeram recuar os limites da incivilidade.

Isto é tanto mais importante, sobretudo porque nestes tempos mais do que nunca, é necessário a reafirmação de um compromisso com o conhecimento, que deve ser inteiramente explicitado, mas que também o é, com processo civilizatório em toda sua profundidade ética da história humana.

Mas, sem perder é claro, uma dimensão fundamental que sempre deve estar a ele agregado, qual seja, a perspectiva crítica, aquele aspecto de rebeldia e inconformismo do saber diante de uma determinada realidade que se pretende indiscutível, portadora da última e da penúltima palavra.

Esta realidade que nos defrontamos muitas vezes emudecida de formulações teóricas e desprovida de conceitos, mas mesmo assim diz saber tudo sobre tudo, e, o que é mais perverso, sobre todos.

Assim, recuperar pois o caráter crítico do conhecimento nestes tempos regressivos e obscurantistas que vivemos, amplificados pela tragédia humana da pandemia, é dizer que ele tem a capacidade de voltar-se contra uma certa naturalidade do espírito da época que parece estar mais para um tempo de convívio acrítico, que poderia ser chamado de um moderno conformismo.

Mas esta pretensa realidade que muitos avocam hoje, de verdades absolutas, dos fins determinarem os meios, de acharem que ao estarem no poder podem tudo, já apareceu em outros momentos históricos, cada um com seus aspectos, especificidades e peculiaridades, é claro.

Em um mundo assim, onde conhecimento, inteligência e lucidez, e seus sonhos e utopias, são relegados a um segundo plano, abrindo espaços para serem superados por medíocres desejos de consumos materiais presenciais ou mesmo remotos, a consequência é que nos deparamos com um universo ausente de sonhos. Aquele privado da fugidia e essencial sensibilidade das quimeras.

E, assim, brutaliza-se a vida cotidiana, torna-se cega seja um crepuscular entardecer sobre o nosso Guaíba, seja à original delicadeza dos transcendentais experimentos florais de Amsterdã. E, neste mesmo sentido, é um mundo ausente de criticidade diante do real, mesmo quando ele nos mostra diuturnamente em nossas casas, em plenas reclusões familiares, os selvagens espetáculos televisivos e jornalísticos dos avanços do Covid-19 pelo mundo.

Num mundo assim não há nada a estranhar que atitudes, a título de exemplos, como a negação da ciência ou uso de notícias falsas para combater a qualquer preço aquilo que temos diferenças, emerjam e adquiram forças de idílicas promessas para todos aqueles que de forma desesperada busquem superar a precariedade intelectual com que vivem seu pertencimento à sociedade humana.

E, neste momento, em que nos é imposto vencer o desapiedado jogo do obscurantismo, simultâneo a uma avalanche epidêmica, estes valores mesquinhos, particularistas, regressivos e preconceituosos que alimentam a vida pessoal de muitos, também buscam atingir a ciência e sua vocação universalista. É por isso que estas iniciativas das instituições de ensino superior, em solo riograndense e pelo país, têm um papel fundamental neste singular e difícil momento que vivemos.

Pois podem significar a não submissão da razão à espontaneidade dos despropósitos insensatos, não deixando com que o mundo seja pautado por uma regressão civilizatória.

Reconhecer os resultados, mesmo que ainda imediatos destes enormes empenhos de nossas instituições de ensino superior, é sustentar nossos compromissos com o conhecimento, a ciência , a tecnologia e a inovação, como as melhores possibilidades éticas e de desenvolvimento que a humanidade foi capaz de produzir ao longo de sua história.

E agora talvez possamos acrescentar outro símbolo, para além daquela pequena aldeia iluminada pelo incerto fogo inaugural da civilização, qual seja, o da era do imperativo do saber e do conhecimento, como uma espécie de um mercado da lucidez, que se oponha à multiplicação da irracionalidade. Promovendo intercâmbios que nos proporcionem o fraternal comércio do saber, um mercado enfim, que institua a razão, a racionalidade e porque não as emoções, como as moedas fundamentais de trocas do gênero humano.