Resolução dos negros e negra do PT/RS

Uma reflexão necessária para o momento que estamos vivendo é sobre como foi possível Bolsonaro, um candidato ultraliberal, conservador, misógino, racista, declaradamente fascista chegar ao poder. Certamente não se trata de uma resposta simples. Acreditamos que uma das razões foi porque o PT não conseguiu incluir o apelo e as expectativas do povo negro de forma efetiva em um projeto de nação, mesmo com os

governos de Lula e Dilma tendo implementado um programa progressista num país com histórico de opressão e violência como do Brasil.

Sabemos que através de toda sua história, o Estado brasileiro organizou o funcionamento de sua estrutura pela lógica escravocrata. Mas, os mecanismos que balizavam a escravidão não se encerraram pela dita abolição. Pelo contrário, o paradigma que rege a sociedade continua escravocrata. É este paradigma que subjetiva toda a sociedade em maior ou menor grau, em todas as classes sociais, em todas as instâncias e estruturas sociais e até em segmentos da esquerda, inclusive no PT.

O PT, que nasceu progressista, não rompeu com a lógica colonialista, que permeia as esferas do poder alijando negras e negros, que são mais da metade da população fazendo com que hajam evidentes dificuldades de interlocução e entendimento das necessidades prementes dessa população. O PT não consegue entender o que negras e negros querem para si e para todos.

Existe hoje no nosso partido, uma urgência em propor instrumentos eficazes de combate ao neoliberalismo, ao conservadorismo e ao projeto da ultradireita, mas esses instrumentos se tornam rasos e inócuos se não forem considerados onde estão os menores salários, onde está a mais alta taxa de desemprego, quais as mulheres que mais são vítimas de violência, onde estão os maiores índices de mortalidade entre jovens, onde está o menor índice de escolaridade.

Historicamente o PT tem acumulado acerca do debate político no Combate ao Racismo   e da Promoção da Igualdade Racial, com a ampla participação de negras e negros, entretanto, ainda existe uma grande lacuna do ponto de vista da representatividade negra no interior do partido e na concretização de suas proposições e suas demandas. A pauta da população negra precisa estar na centralidade do debate político programático do nosso partido. Em que pese o debate permanente, ainda não é priorizado. É urgente aprofundar esta pauta. É preciso repensar a estratégia política em todos os seus aspectos, dialogando com a vida real do nosso povo, respeitando a cultura, a história e a religião de uma fé negra historicamente invisibilizada pelos setores retrógrados do cristianismo e demonizada pelas novas igrejas de concepção fundamentalista. Algumas correntes evangélicas, inclusive, utilizadas nos últimos tempos para formar a opinião e dirigir a ação de amplos contingentes sociais, negando a política e confundindo a consciência popular, contribuindo decisivamente para a eleição do projeto fascista e ultraliberal que destrói princípios constitucionais de Estado laico e democrático.

Bolsonaro, e o que ele representa, foi eleito com parte dos votos de negras, negros, mulheres, LGBTs, mesmo apresentando uma proposta de morte e exclusão para essa população.

O PT tem que considerar que a história da exclusão de negras e negros não é apenas uma questão da luta de classe. Não há que se falar em luta de classes no Brasil ignorando a história da formação étnica e social brasileira.

Mesmo alcançada a utopia da extinção das desigualdades sociais, no caso de negras e negros, o racismo ainda persistirá. Esta realidade se traduz até mesmo na estrutura interna do partido. São poucas as negras e negros que chegam as mais altas instância do partido. São poucas as negras e negros nos gabinetes e assessorias de parlamentares e executivos petistas e até mesmo as cotas para participação dos filiados como delegados em congressos, plenárias e outras instâncias partidárias não respeitam a proporcionalidade do povo negro na sociedade, afinal, reafirmando, somos mais da metade da população brasileira. É preciso que o PT deixe de silenciar sobre a questão racial internamente, que tire o racismo debaixo do tapete.

Compreender a história e a vida do povo negro no Brasil, a luta nos quilombos, nas comunidades, periferias e irmandades, é base para uma elaboração teórica sobre o socialismo que queremos. A questão racial deve

estar colocada no programa e na prática, inclusive interna do PT, estabelecendo um novo diálogo com a sociedade brasileira.

Em tempos de agravamento da crise social e econômica, quando chocam os números da fome e do êxodo em direção às periferias desassistidas das cidades, é preciso saber quem já está lá, quem sempre esteve lá. Afinal, é preciso lembrar que o Estado brasileiro fortaleceu o racismo estrutural através de leis racistas que durante o Brasil Colônia e Império proibia negras e negros de frequentar a escola, de votar, de ser parte integrante deste país. A República pouco modificou esta situação, e os poucos avanços que tivemos nos últimos anos estão sendo retirados, nos levando mais uma vez a realidade do século XIX.

Impossível falar sobre resistir em tempos da terrível ameaça capitalista/fascista sem considerar que o povo negro tem uma rica história de mais de 500 anos de luta e resistência para contar.

É preciso que o PT enegreça. É urgente enegrecer o PT!

Porto Alegre, outubro de 2019.