Na voz de um cantador

Sofia Cavedon

Por mais que Zé Ramalho nos alertasse e tantas vezes cantássemos: “Quanto tempo temos antes de voltarem aquelas ondas, que vieram como gotas em silêncio tão furioso, derrubando homens entre outros animais, devastando a sede desses matagais… devorando árvores, pensamentos, seguindo a linha, do que foi escrito pelo mesmo lábio, tão furioso”, a lama de ferro da exploração predatória e de lucros exorbitantes explodiu de novo matando a vida.

O escrito, o grito, a luta dos movimentos sociais pedindo a revogação da venda da Vale do Rio Doce, denunciando a entrega da riqueza pública, a perda de gestão e de renda que financiariam políticas públicas para acessar direitos, foi sufocado pela propaganda oficial e da mídia empresarial defendendo o negócio como “bom para o presente e o futuro do Brasil”.

O grito de Mariana, dos rios, dos peixes, das famílias derrotadas pela força do poder jurídico da empresa – que com seus bilhões de lucros sabe se defender muito bem dos crimes que comete – mal traduzido, desconsiderado, banalizado não serviu para evitar um novo crime, mais duro, mais letal ainda.

“Acho bem mais do que pedras na mão, dos que vivem calados, pendurados no tempo, esquecendo os momentos na fundura do poço, na garganta do fosso, na voz de um cantador.”

Assim é o povo brasileiro que bombardeado pela manipulação da opinião pública, pela urgência da sobrevivência esquece, deixa pra traz, faz renascer a esperança num fio de linha, numa oração, num cântico, num discurso. E de novo, o projeto de retirada do estado de funções que eram públicas, as privatizações, as terceirizações ganharam representantes eleitos para governar esse país. Na bola da vez estão a exploração de petróleo, o tratamento e fornecimento de água, as terras preservadas da Amazônia e Mata Atlântica, as reservas indígenas, os bancos públicos… Qual é a próxima tragédia provocada pela desobrigação do estado e fragilização das relações de trabalho?

Quantos funcionários terceirizados, explorados ainda mais que os empregados diretos, morreram na lama de Brumadinho? Fica mais barato para a Vale a indenização. A reforma trabalhista desses mesmos que querem aprofundar a da previdência, colocou teto nas indenizações para as famílias dos funcionários mortos, pasmem! E nenhum teto para os lucros da empresa! Na verdade, é dinheiro público que está sendo gasto no socorro pelos bravos bombeiros, na tentativa de controlar a contaminação dos mananciais que abastecem de água as populações, no atendimento em saúde das vítimas, na fiscalização e na tentativa de responsabilização da empresa. Até o Fundo de Garantia foi liberado, imaginem, para que os próprios atingidos tomem suas providências (sic) mas até R$ 6.000,00 – notícia da voz do Brasil.

Até quando os novos ultras neoliberais, propagadores da suposta incompetência do estado e dos funcionários públicos e enaltecedores da virtuosidade da iniciativa privada – da regulação do mercado, pela competitividade – vão sustentar essa versão irresponsável e predadora da vida? Quantas mortes serão precisas para que recuem da voracidade do acúmulo de capital privado sobre o orçamento e a riqueza públicos e sobre os direitos de quem vive do trabalho?

Nenhum sinal disso! Ao contrário, o acesso à informação foi restringido, o Ministério da Cultura e o Ministério do Trabalho foram fechados, as investigações agora ocorrem em sigilo… Os sinais são de repressão para o programa se impor.

“E se teu amigo vento não te procurar, é porque multidões ele foi arrastar.” Só a cidadania em marcha pode barrar mais retrocessos. Só a mobilização cultural e popular promove a consciência dos imbricados caminhos da exploração sem limite do trabalho e da natureza e a percepção das graves consequências. O rico Minas Gerais, saqueado na primeira colonização, ouro, prata, sangue de índios e de negros escravizados e espoliados, agora cenário das consequências do novo ciclo de acumulação capitalista, tem que sacudir esse Brasil!

“E virá como guerra, a terceira mensagem, na cabeça do homem, aflição e coragem, afastado da terra, ele pensa na fera que o começa a devorar. Acho que os anos irão se passar, com aquela certeza, que teremos no olho, novamente a ideia, de sairmos do poço, da garganta do fosso, na voz de um cantador. “

(*) Vereadora de Porto Alegre e Deputada Estadual eleita/PT

Artigo publicado originalmente no Portal Sul 21 – www.sul21.com.br